Posts Recentes

Nova série de posts

June 19, 2015

1/4
Please reload

Destaque

Público e privado, masculino e feminino

March 4, 2016

Oi, gente!

Eu sou a Gabi Cascelli, sou de Brasília, tenho 25 anos e agora tô morando em São Paulo, fazendo uma residência em gestão e planejamento urbano. Apesar de ter muitas coisas legais e menos acadêmicas pra compartilhar com vocês, esse meu primeiro post é mais maçante. Ele foi um esforço de iniciar uma discussão sobre arquitetura, urbanismo e gênero e talvez sirva como um “spoiler” do tipo de coisa que nossa Revista vai trazer. Espero que mais que respostas ele lhes despertem perguntas, diálogos e trocas, afinal estamos todas aprendendo juntas.

Também é importante lembrar que nosso blog é um espaço aberto, estamos sempre aceitando contribuições e posts de vocês, participem! =)

 

 

         Desde a Segunda Guerra Mundial, os organismos internacionais começaram a criar leis sobre direitos humanos universais, que vão muito além daqueles próprios de cada país. Esses direitos de cumprimento obrigatório têm a ver com a vida, a moradia, a salubridade, a justiça e o trabalho.

             Cada governo é responsável por sua aplicação, eles envolvem todos os habitantes da Terra e contemplam os novos direitos de grupos sociais até há pouco marginalizados ou invisíveis, como as mulheres, crianças, negros, homossexuais, transexuais, índios etc. É fundamental levar em conta que os direitos humanos são inseparáveis, não se pode garantir um deles sem os demais. Essa é a primeira grande novidade da pós-modernidade em relação a uma modernidade definida por um eurocentrismo que teve de ceder parte de seu poder: primeiro aos Estados Unidos e hoje aos novos países emergentes.

     As metrópoles urbanas, que hoje são lar da maioria dos habitantes da Terra, reúnem as maiores vulnerabilidades que enfrentamos hoje: a perda da memória, o problema de moradia, os crescentes processos de exclusão e a insustentável exploração dos recursos naturais.

 

O contexto de crise – e, por que não?, reinvenção – que nossas cidades estão atravessando sinaliza a necessidade de novas maneiras de se pensar o planejamento e a gestão urbana. A sociedade civil se organizando de formas inovadoras e a apropriação pela população da discussão sobre o futuro que se quer para as cidades mostram que existe abertura e necessidade de se incluir a discussão sobre gênero como pauta transversal a todas as políticas. Como falar em combate à violência doméstica ou às desigualdades salariais entre homens e mulheres sem levar em conta que o meio urbano é cenário desses conflitos? Com mais de 80% da população brasileira vivendo em cidades, é evidente que o espaço construído exerce influência fundamental na manutenção ou superação de tal assimetria na relação entre homens e mulheres – e que muito pode se avançar ao se abordar a questão a partir da perspectiva do planejamento e desenho urbanos. HARKOT, 2015

 

      Com o predomínio de uma ideologia neoliberal, desde a década de 1990, o capital transnacional começou a investir em qualquer lugar que permitisse uma rentabilidade através do controle de propriedades e domínio dos seus preços, favorecendo assim a especulação imobiliária e a distorção do mercado de moradia. A esmagadora maioria dos habitantes da Terra são inquilinos precários ou pequenos proprietários de imóveis financiados, sendo que os detentores das terras são majoritariamente homens, brancos, europeus, heterossexuais e conservadores.               Além dessa disparidade há uma evidente injustiça de gênero, apontada pelo fato de que apenas 1% das propriedades de solo pertencem às mulheres.

Nesse cenário mundial, a cidade se transformou em mercadoria para absorver os excedentes de mercado[4]. Assim, as crises econômicas encontraram saídas através de insensatas urbanizações que intensificaram os problemas de gênero no pertencimento das cidades, e que assim continuam reproduzindo uma lógica setorial.

          O problema é que apesar de existir uma denúncia ao modo como o planejamento é feito há mais de 30 anos, as cidades continuam sendo construídas por partes, por setores e com altos investimentos em infra-estrutura para automóveis. Essa fragmentação que segrega funções gerou uma cidade segregada: por funções, por classe, por raça e por gênero.

 

          Com a modernidade, houve uma construção social dos gêneros que excluiu a mulher da vida pública e do trabalho produtivo e representativo, delegando a ela tarefas relacionadas ao espaço privado e alheia ao mundo público. A mulher não desfruta plenamente de sua reclusão e privacidade, pois para isso é necessário fazer parte da vida pública.

      Foi-se construindo o privado como direito à propriedade, à privacidade e à intimidade, enquanto o público deveria servir como garantia de igualdade de oportunidades, de oferta de serviços e de bem-estar. De acordo com Hannah Arendt[2], há uma esfera que permeia tanto o público quanto o privado, que é a esfera social. Se a esfera pública se refere ao comum, àquilo que se expressa e que se propagandeia em um amplo mundo compartilhado, é na esfera social que se “comunica” o privado. Por outro lado, a esfera privada está relacionada à intimidade e à propriedade, e sua concepção parte da consciência de “estar privado de coisas essenciais de uma verdadeira vida humana. Estar privado da realidade que provém de ser visto e ouvido pelos outros”. Por isso, carecer de um lugar próprio, privado, significa deixar de ser humano.

        A habitação, um dos direitos universais, é definida por Zaida Muxí como “poder desenvolver as diversas esferas da vida em igualdade de oportunidades, com intensidade e integridade.”[4]. Assim, as mulheres vêm sendo privadas de seu direito à habitação, bem como do seu direito à cidade. Essa exclusão, ironicamente, tem aparatos legais para ser superada, como a Constituição de 1988 e o Estatuto da Cidade.

    Estando a mulher, portanto, privada da vida pública, os movimentos feministas foram responsáveis pela constante busca de seus direitos. É recente a conquista de direitos básicos, como a participação da vida política, acesso aos estudos e ao mercado de trabalho[5]. E mesmo assim, ainda há um lento avanço que busca eliminar o papel socialmente construído para a mulher, que lhe impõe salários mais baixos para realizar as mesmas funções, jornadas duplas e triplas, recorrentes abusos morais e sexuais, pouca representação política nas instâncias de poder (tanto na arquitetura quanto nos cargos de Governo) e dificuldade de acesso à cidade.

 

   

Durante o último século, um dos princípios mais importantes do projeto arquitetônico e do urbanismo nos Estados Unidos foi ‘O lugar da mulher é o lar’. Um princípio mais implícito que explícito de uma profissão conservadora e dominada pelos homens [...]. Essa questão gerou muito menos debate que outros princípios organizativos da cidade norte-americana contemporânea, em uma era do monopólio capitalista, que inclui a pressão destruidora da urbanização de terrenos privados, a dependência fetichista de milhões de veículos privados e o uso desmedido de energia [...]. Ao deixar de ouvir essa norma, mulheres ingressaram em massa na força laboral paga. Edifícios, bairros e cidades eram projetados para manter as mulheres no lar, constrangendo-as física, social e economicamente [...]. O remédio para essa situação é desenvolver um novo paradigma do lar, do bairro e da cidade [...] que deverá dar suporte, mais do que restringir, as atividades das mulheres trabalhadoras e de suas famílias. (HAYDEN, 1980)

 

         Assim, quando a mulher finalmente conseguiu acesso à educação e qualificação para exercer a profissão de arquiteta, seu papel na profissão era essencialmente ligado ao lar: desenhar cozinhas, residências, decoração de interiores, pequenos jardins etc. Enquanto era tarefa dos homens planejar e projetar a cidade e seus mais diversos edifícios.

      Em 1893, foi fundada a National Household Economics Association, ou seja, a criação de cursos de graduação sobre economia doméstica e abordagens mais científicas e profissionais sobre esse trabalho tipicamente feminino. Por um lado, as feministas tentavam diminuir as horas gastas com tarefas domésticas para que as mulheres tivessem tempo de se dedicar a outras atividades. Por outro lado, os conservadores queriam que as mulheres se especializassem nas tarefas domésticas, tornando-se administradoras altamente qualificadas do lar.

No começo do século XX, os arquitetos e urbanistas começaram a fazer parte do projeto das cidades, que antes estivera nas mãos de médicos higienistas, engenheiros militares e civis, políticos e chefes de polícia. A conquista desse lugar garantiu pela primeira vez na história a produção em série de moradia popular para as classes trabalhadoras, tema esse que ocupou o centro do pensamento arquitetônico e constituiu a teoria e obra de arquitetos de renome, como Adolf Loos, Alexander Klein, Ernst May, Margarete Schutte-Lihotzky, Lilly Reich, Ludwig Mies van der Rohe, Walter Gropius e Le Corbusier[1]. Em todo esse processo, mulheres até hoje pouco reconhecidas, contribuíram e tiveram um papel importantíssimo para estabelecer uma tradição de repensar a moradia a partir da experiência e da eficiência.

       Foram então projetadas moradias que repensavam a distribuição do trabalho doméstico e das esferas pública e privada, tais como o Familistério de Guise, gerido coletivamente pelos trabalhadores da fábrica por 80 anos (1849-1968); a proposta da norte-americana Melusiana Fay Pierce, de um bairro de 28 casas sem cozinhas (1868); o Homesgarth, 32 apartamentos sem cozinha na cidade-jardim de Letchworth (1909); as experiências da moradia mínima operária da denominada Viena vermelha (década de 1920); os 57 apartamentos desenvolvidos por Alva Myrdal e Sven Markelius no distrito de Kungsholmen, que foram apontados pela revista Life como ideais para as mulheres que desejavam ter acesso ao trabalho; os projetos de El Lissitzky, de Kostantin Melnikov, dos irmãos Vesnin e de Mposeo Ginzburg na União Soviética e os projetos dos grupos vienenses Margarete Schutte-Lihotzky Hof e Sargfabrik.

        Essas experiências partiam da premissa de que não era justo as mulheres terem que encarar uma segunda jornada de trabalho ao retornarem para suas casas, por isso era comum cozinhas coletivas e equipamentos comunitários, que reconheciam as tarefas da família como trabalho. Esses projetos que enfatizavam áreas coletivas entediam que as tarefas domésticas deviam ser divididas por todos, homens e mulheres e, portanto, deviam ser feitas de modo a facilitar e otimizar o processo. 

    Agora é necessário enfatizar que a diferença histórica aqui narrada que divide mulheres de homens é uma construção cultural binária que atribui a cada lado formas de poder. Assim, o tempo instituiu que aqueles do sexo masculino são responsáveis pelo público, pelo urbano, pelo exterior, pelo importante, pelo difícil. Enquanto aquelas do sexo feminino são responsáveis pelo privado, pelo doméstico, pelo interior, pelo frágil, pelo delicado, pelo sentimental, pelo secundário. Essa divisão binária é reproduzida nas diversas escalas da vida cotidiana, desde o inconsciente até as coisas concretas.

    Assim, a cidade também segue essa lógica, ficando dividida entre o público e o privado. E é nítido o papel que cada gênero tem nessa divisão:

 

O que conhecemos como ‘homem’ e o que conhecemos como ‘mulher’ não consiste em um conjunto de atributos, em um conjunto de objetos predominantemente naturais, mas trata-se, em grande parte, de construções culturais [...]. Segundo o pensamento da diferença sexual, o sujeito do conhecimento não seria um ser neutro universal, mas sexuado, e o conhecimento que esse sujeito pretensamente universal produziu ao longo da história seria somente um conhecimento masculino, no qual nós, mulheres, não nos reconhecemos. Nas sociedades patriarcais, os homens teriam construído sua identidade masculina como única identidade possível, e teriam negado às mulheres uma subjetividade própria. (GARRETA & MILAGROS, 2003)

 

      Portanto, essa relação que foi tecida pela história, ditando o lugar que cabe à mulher e o associando falsamente com a vida doméstica, precisa ser constantemente questionada e problematizada pelas/os projetistas, a fim de refletir nos projetos as características que permitam uma maior presença feminina nos espaços públicos. Para exemplificar como essas características podem ser aplicadas, cita-se a seguir a experiência de Viena.

      Viena é uma cidade que possui um histórico de projetos de habitação de interesse social, marcado por três projetos desenvolvidos na década de 1920. Os projetos foram promovidos pelo Departamento de Gênero da cidade, chamados Frauen-Werk-Stadt I, II e III, e tinham como objetivo diminuir a carga de trabalho doméstica a partir da implantação de espaços comuns como cozinha, área para as refeições e lavanderia. Nesse contexto cita-se Margarete Shütte-Lihotzky, a primeira arquiteta austríaca que desenvolveu projetos relacionados com a habitação acessível e de qualidade, entre eles, a cozinha de Frankfurt (1927). Em entrevista Margarete comenta que uma das maiores mudanças na habitação deve refletir o fato de que as mulheres, em geral, começaram a trabalhar, e isso requer focos completamente novos.

          Nesse contexto, foi fundado em 1992 a “Oficina de Mulheres” em Viena. O conselho da cidade aprovou um concurso para responder a pergunta levantada pela Oficina “Como seria um distrito planejado a partir da perspectiva de gênero?” e, em 1993, Eva Kail foi a responsável pelo projeto modelo Werk Stadt Model Project. Os três projetos construídos a partir desse concurso têm características e objetivos bastante diferentes que são fundamentados pelos diferentes grupos de mulheres que participaram de cada um deles. A ampla participação das mulheres nessas três experiências comprovam que é possível dar forma concreta para os ideais de criação de espaços mais igualitários e agradáveis para diferentes grupos.

 

O desafio consiste em construir um espaço sem gênero nem ordem patriarcal; portanto, um espaço sem hierarquias, horizontal, um espaço que evidencie as diferenças, e não as desigualdades, um espaço de todos e de todas em igualdade de valoração de olhares, saberes e experiências. O objetivo é ressignificar a construção de nossas cidades a partir da experiência que os homens e as mulheres têm do mundo – duas maneiras de enunciar a realidade. (MONTANER & MUXÍ, 2014, p.198)

 

 

 

 

 

Please reload

Siga a gente
Busca por Tags
Please reload

Arquivo
  • Facebook Basic Square

INÍCIO

 

CONTATO

 

DOWNLOAD

HORA

DO CAFÉ

 

REVISTA

 

GALERIA

AS

MULHERES

QUEM  SOMOS

INÍCIO